segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Domingo, 4h30

Os olhos de quem se ama nunca se vêem, capitulo X

Um som. Monótono. Constante. Repetitivo.
Há horas que o meu cérebro se debate com uma amarga indecisão: ficar surdo ou enlouquecer?
Tudo isto por causa daquela maldita máquina tipográfica. Ainda não passaram 2 horas desde que a conheço e já a odeio. Fechado nesta sala, com ordens de escrever os panfletos que ela imprime sucessivamente, que má altura para me dar um bloqueio de escritor.
Estava tão bem no Bristol, um cigarro e um copo de whisky como nos velhos tempos, quando F. se aproximou vindo sabe-se lá de onde.

-“Ordens para ti. Ouvi dizer que és escritor e nós precisamos de umas frases bonitas para os panfletos de recrutamento. Sim. Uma ruela junto ao porto, encontrarás todo o material que precisas.”

E assim aqui estou eu, nesta tipográfica clandestina, fechado numa sala com esta máquina infernal. E com A., absorto na tarefa de inventar slogans. Tarefa que cumpre magistralmente deve-se dizer. Nada é mais fácil para ele do que fazer rimar “Luta” com “Camarada” ou “Povo” com “Revolução”. As palavras fluem em nele como o sangue. Faz parecer tudo tão fácil…
Mas para mim continua difícil. Talvez não o sinta o suficiente. Talvez a revolução não me esteja no sangue. Fecho os olhos e só consigo pensar nela. Ela que me faz estar aqui.
Mas… segundos depois só consigo pensar na dor de cabeça que este barulho me causa…e na folha de papel branco à minha frente…

Relatado por Joszef

sábado, 26 de dezembro de 2009

Bristol Club. 26 Dezembro 1927

Não dormi naquela noite.
Além da chuva que batia sem cessar, algo me tinha perturbado.
Acompanhei o senhor até à porta do Bristol para ele se ir embora, pois não parecia ter grande vontade de sair. O pianista arrumava as suas partituras na mala castanha e abstraiu-se da cena.
-O meu nome é Miguel...
Não queria mesmo saber. Enquanto se aproximava da escadaria para a saída, parecia relutante em subir. Abrandou o passo e num acto de coragem parou no foyer. Não estava para ficar à espera do que ia sair daquela cabeça de cabelo desalinhado. Disse boa noite mas não houve reacção. Abri a porta na tentativa que o frio da rua o despertasse ou que pelo menos entendesse a mensagem para se ir embora. A reacção foi a mesma. Imóvel a olhar para o nada, com um nervosismo visível nas mãos que tremiam.
Subitamente deve ter tomado conta do tempo que estava a ocupar. Num momento acordou, olhou para mim e no seu olhar vi uma força e determinação capaz até de derrubar a autoridade.
Não pude admirar os olhos dele durante muito tempo. A força que os seus braços faziam puxavam-me contra ele e depressa os olhos dele se fecharam.
Porque é que não consegui dormir nessa noite?
(Escusado será dizer que fui a dormir no caminho para Lamego. Foi um bonito Natal.)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Bristol Club. 24 Dezembro 1927

Parto amanhã para Lamego para passar o Natal. Lisboa parece-me sombria e até o Luís e a Catarina foram para o Porto. Os clientes são poucos e tenho de fechar o club para a solenidade do Natal.
Apenas fiquei eu, o pianista e o cavalheiro que apesar de passar a vir menos vezes, quando vem continua a sentar-se na mesma mesa e pede a mesma bebida. Ritual que não estaria completo se não continuasse a fixar-se em mim.
Causa-me impressão mas como normalmente estou ocupada não ligo. Mas hoje...
-Pedia que se fosse embora. Vamos fechar.
O piano pára de tocar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Sábado, 23h11

Há semanas que não escrevo. Falta de inspiração? Talvez.

Mas sobretudo falta de tempo. O trabalho e a rotina têm o dom de roubar as ideias e transforma-las em vazio. O dia-a-dia afasta-me cada vez mais das revoluções reais ou ficcionadas. E no entanto em torno de mim elas continuam a existir. A realidade a e a imaginação têm a sua vida e, cada vez mais, vivem sem mim.
Não me importo. Nunca me considerei escritor, sempre fui acima de tudo leitor. Leitor, invasor e pirata, saqueador da imaginação alheia, roubando e aproveitando o que me convêm. E sou-o com orgulho, porque viver sem ler é estar limitado a uma vida e a um lugar. Sem ler, nunca teria saído de Lisboa. Através dos livros já viagem a todas as províncias do nosso Império, o bairro das Fontainhas em Goa é-me tão próximo e conhecido como a Madragoa.
Gosto de alguns livros que preencho com a minha imaginação, outros preenchem-me a vida e não consigo fugir deles mesmo quando os fecho. Como as mulheres. Por isso é apropriado que este texto seja uma declaração de amor.

Hoje sento-me numa das mesas do Martinho da Arcada. Falando de livros e escritores, ao balcão está aquele poeta que tanto tem sido falado. Bêbado, como costume.


J.F.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Bristol Club. 30 Novembro 1927.

Debruçada sobre o balcão com o queixo apoiado na mão, tento imaginar qual o tema de conversa de cada mesa. Já me tinham dito que era uma actividade interessante e estando o Luís a limpar copos, não tenho nada de melhor para fazer com a chuva imensa que cai. O piano começa a tocar lentamente.
Obviamente que o Francisco está a sussurrar ao ouvido da sua acompanhante coisas obscenas que ela parece estar a gostar. Na mesa ao lado estão dois pares de namorados que parecem estar a divertir-se... Pelo menos elas que estão a falar de forma ruidosa, sabe Deus sobre o quê, enquanto eles bebem mais um copo de Porto. Está o senhor Gonçalves na mesa do canto a fumar e mais uma vez a fazer desenhos no seu caderno. No fundo do salão está o grupinho de sempre que se costuma reunir para tratar de assuntos. Desses não quero saber o que estão a falar. O piano acelera o ritmo.
Ao percorrer a sala reparo que está o cavalheiro do cachimbo a olhar fixamente para mim. Levanto-me do balcão, componho a saia e vou ver se lá fora ainda chove. Deixo de ouvir o piano à medida que saio do salão.

domingo, 15 de novembro de 2009

Bristol Club. 15 Novembro 1927

Esta noite a casa esteve cheia. Senti a maior satisfação quando, ao saírem, ainda lançavam sorrisos e ainda tinham uma alegria excitada que podia durar até à noite seguinte. Depois de limparmos o salão e arrumarmos as cadeiras, decidi ir dar uma volta, mesmo com o vento, que fazia aquela madrugada cheirar a inverno.
Fui até ao miradouro de S. Pedro ver o nascer do sol. Vi que não estava sozinha, mas não me importei muito.
À medida que aquela bola quente se erguia no céu, e à medida que a minha face aquecia mais eu queria sentir o seu calor. Inatingível. Conformada, enrolei-me no casaco, disse bom dia aos que passaram por mim e fui para casa.

sábado, 7 de novembro de 2009

Quinta-feira, 6h30

Os olhos de quem se ama nunca se vêem, capitulo IX


Caminho sem direcção pelas ruas da cidade que acorda sonolenta.
Quando dou por mim encontro-me em S. Pedro de Alcântara. O sol ergue-se lentamente por detrás da silhueta escura do Castelo, enquanto uma velha, cuja roupa é tão escura como negra é a sua solidão, desce lentamente a rua da Glória…

-Porque quer lutar contra a ditadura?

-Porque quero lutar.

-Porque escreve?

-Porque me apetece escrever.

-Mas com certeza que escreve por ter algo para dizer…

-Não.

-Faça o favor de não me voltar a interromper. Quando um escritor escreve fá-lo por ter algo para dizer. Alguma mensagem ou opinião para dar.

-Como sabe vossa excelência que assim é? Conhece, por acaso, a alma de todos os que escreveram desde o inicio dos tempos? Conhece a minha alma?

-Seja. Nenhuma mensagem, nenhuma opinião, nada para dizer. Porque deseja então juntar-se à nossa luta?

-Porque o vosso caminho é o meu caminho, porque nessa luta busco um objectivo.

-Assume então que não luta por compromisso ideológico mas apenas por motivos pessoais? Sabe com certeza que não é o que esperamos dos nossos camaradas.

-Sei…

O sol nasce como todos os dias. Mas para mim, nesta manhã, tudo é diferente.

Relatado por Joszef