domingo, 19 de julho de 2009

Bristol Club. 19 Julho 1927

Várias pessoas me perguntavam porque é que acabei com o Rui. Agora já ninguém fala nisso e até parece que ele está com outra rapariga que mora em Alcântara. A senhora da limpeza, sem qualquer discrição, até disse que era bastante “apetecível” para os homens. Apetecível? Qual é o sentido dessa palavra?
Não tardei a descobrir quando desceram os dois as escadas do Bristol de braço dado e bastante cúmplices, trocando palavras secretas e gestos específicos. Trazia um vestido de franjas e um colar de pérolas até à cintura notavelmente elegante. Ao depararem-se comigo calaram-se os dois, ficando apenas um sorriso simpático e cordial.
Como tens passado? Oh, que cabeça a minha, esta é a Bianca. Estamos noivos.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Bristol Club. 15 Julho 1927

À medida que tento procurar um novo barman para o club, aumenta o meu confronto com uma questão que sempre me acompanhou mas que nunca tinha reparado nela. Confiança.
Confiar em alguém é para mim uma tarefa difícil. Chamem-lhe o que quiserem. Traumas. Defesas pessoais. Personalidade. Não interessa, nem importa. A verdade é que, após a partida do Afonso, não consigo imaginar ninguém para ocupar o seu lugar. Já o conhecia, já confiava nele e sabia que não faria nada que fosse contra os meus desejos.
Em quem confiarei a co-gestão do bar. Não posso saber se o perfeito desconhecido que vou contratar me vai agradar ou não. Nem o Rui me causou tantos problemas de confiança. Pelo menos nos primeiros tempos.

domingo, 12 de julho de 2009

Segunda-feira, 22:50h


Deixei de beber. Faço este anúncio como quem anuncia algo de importante e monumental, quando na verdade apenas passaram dois dias desde que bebi o último copo de whisky. De facto é algo de totalmente irrelevante. Não o fiz por razões morais, muito menos por preocupações de saúde. Pura e simplesmente descobri que sem o álcool o meu vício era outro: escrever. E assim consegui retomar aquela personagem perdida e a sua história de amor inexistente.
Não avancei muito, mas já foi qualquer coisa….

J.F.

Quinta-feira, 00:42h

Os olhos de quem se ama nunca se vêem, capitulo III

Eu disse que não conseguia esquecer!
Escrevo febrilmente estas linhas num guardanapo enquanto retomo na minha mente o filme desta noite.
Parecia só mais uma noite no Bristol, igual a todas as que se tem seguido ininterruptamente nas últimas três semanas. Até que…terá sido uma miragem? Parecia que o mundo estava a girar mais lentamente, enquanto ELA se sentava, na outra ponta do balcão. Sim, era mesmo ela. Os mesmos olhos verdes que nunca irei esquecer.
Estava sentada ao balcão, a beber um Martini e a fumar um daqueles longos cigarros de senhora. O vestido era vermelho, mas um vermelho sóbrio e quase frio.
Fiquei a olhá-la esquecido de tudo. Não sei quanto tempo passara mas ela levantou-se, calmamente. Enquanto se levantava pude vislumbrar, por baixo do vestido, uma combinação preta…
Fechei os olhos, pedi outro whisky. Duplo, talvez. Quando voltei a olhar ela já desaparecera, como num sonho.
Relatado por Joszef

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bristol Club, 11 Julho 1927

Apetece-me ausentar durante uns dias. Fugir de tudo e encontrar refugio.
Quero rebuçados da Régua apanhar a locomotiva e percorrer a linha do Douro.

As memórias desses tempos...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Bristol Club. 9 Julho 1927

Ouvi chorar e tive de deixar o bar para ver o que se passava. A noite estava quase no fim e a banda cansada de tocar. Ao chegar à entrada apenas ouvia um soluçar que não parecia ter fim. Procurei na escuridão e lá estava ela, uma menina pequena, pouco mais de 8 anos. Dizia entre lágrimas que não sabia o caminho para casa, tinha saído com o pai do club mas distraiu-se no caminho.
Oh o que fazer? Nem eu sei o meu caminho quanto mais o dela.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Sexta-feira, 23:30h

Mais outra noite a beber no Bristol.
Escrever…tenho que voltar a escrever.

J.F.

Sábado, 02:14h

Os olhos de quem se ama nunca se vêem, capitulo II

Já passaram duas semanas depois daquele encontro fatal.
Desde que a rapariga dos olhos verdes me disse aquelas quatro palavras que não tenho feito outra coisa senão beber. Os dias seguiram-se uns aos outros, numa névoa permanente. Mergulhei numa garrafa de whisky e só agora estou a sair dela, semi-afogado.
Bebi para esquecer e, apesar de tudo, não consigo deixar de lembrar...


Relatado por Joszef

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Bristol Club. 4 Julho 1927

Azul, a manhã estava azul...
A noite passou tranquila para todos, excepto para o Afonso que com o medo, não saiu mais do gabinete... E obviamente para mim... Para alem de ter ficado a noite inteira a servir ao balcão, tive bilhetes de primeira fila para assistir à vida daquela família ao vivo. Crianças a sorrir, como me alegram... Comemora-se o dia da Independência na América.
A Dona Adelaide, mais calma, voltou ao club dirigindo-se ao gabinete. Copos partiram e gritos soaram no final da noite. Houve choro e chegaram à conclusão que não era necessário derramar sangue. Saíram de mãos dadas, ela olhou-me. Sabia o que o olhar dela me dizia.
Definitivamente, tenho de arranjar um novo empregado.